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saulokrieger
São Paulo - SP
 

No meu sonho cheguei à Marte; à mão, um copázio vazio de geléia...

  No meu sonho cheguei à Marte; à mão, um copázio vazio de geléia...

     Águas de Marte

Parte II

 

Como é que é?! Fátima Bernardes, como é que é?! Água de Marte? Me dá pra mim um copo de água de Marte! Será que tem vida lá? Um fungo, uma vorticela básica... Pois se teve água... Sempre houve vida em Marte, sabido é que o Planeta Vermelho produzia uns homens verdinhos — não não não, não eram viadinhos. E a cor da água, vermelha também? A de Vênus, se tiver, é borbulhante, é água quente. Plutão não existe mais, roubaram o meu signo, fiquei putíssima! “Não, Kal, não é assim, não é que não exista mais, é que os critérios são bem outros... Coisa de ciência...” “Não não não, eu não entendo: ou é ou não é! Roubaram o meu signo, não tem planeta, não tem signo nem porra nenhuma! Eu era de escorpião — signo de sogra, de gente que transa à pampa, de megera e de mulher dadeira, reza a lenda! Era o signo de genitália e morte, roubaram-nos uma coisa e outra, que seja, as boas coisas da vida, que só querem a vida perpetuar”. “Água benta, se for benta de padre que bolina criancinhas — e depois dá de brinde um pastel e uma coca, ou uma fanta, que é baratinha —, ela me entra rasgando inteira, e eu acho que aquilo é coisa do coisa-ruim, lá isto sim!”. Então: decidido: a água tem cor, e é vermelha, se a Amália não quiser ir eu vou só, e se a Fátima não mentiu, tem água em Marte, tem vida lá (nem que seja de vorticela), e é vermelha, mas e agora, o xixi? Como sai o xixizinho da moça aqui? Vermelho? Isso já é gota de menstruação. Ou então parece que eu comi uma beterraba inteira com todo-chá-de-ibisco-é-diurético. Xixi vermelho, não. É verde, feito a prole.

E foi assim, ignorando o vinagre do Cristo crucificado, cuspindo na parede a água toda Perrier, que a Kal-Cinéri-Vulguéri, recusou a água benta — “eu acredito nas bestas, nas bentas e nos padres que molestam coroinhas” —, a Da Guarda-imagem-da-santa eu não encontrei, e a Kal, que tudo pode e tudo quer, bateu o pé: fica decretado: de ora em diante, doravante, por esta goela que a terra há de comer só entra água de Marte, que entra vermelha-cor-de-sangue e sai verde feito cor de vara treme-treme. Deu pra mim, ou melhor, não deu: tomei um lexotan um gardenal um rivotril, desceu tudo com água da torneira mesmo — quando eu era pequeno era da torneira, só depois veio um filtro com cara de barril. Caí na cama, não dormi, posto que sonhei profundamente: estava em Marte, de novo a casa do signo destelhado da Kal — já que ela, do sexo, da morte e da sogra, é de escorpião, que voltou pra casa de antes, feito loira vadia pela manhã, mas ela, a Kal, não sabe dessas coisas planetárias, de ciência ou de crença.   

No meu sonho cheguei a Marte, e na mão, um copázio vazio de geléia, vaguei por um terreno muito longo, sem fim e seco. Todo planeta, exceção feita à Terra, que é de água ainda que se chame “terra”, à Urano, que é de gás, e à Plutão, que não existe, é desoladamente seco. Cheguei ao pólo norte de Marte — eu sabia que era, pois havia uma plaquinha, uma lojinha de souvenirs pré-fabricados “estive aqui, lembrei de você, comprei esta porcaria barata...”, vi o Sol tão de longe, em flashs , a cruzar o arrebol, e tinha lá um homenzinho verde, e de Marte sabia tudo, ele... Ali naquele pólo norte vi um grotão rochoso, um rastro de sonda e uma bandeira dos States — claro: daquelas que a Madonna, sempre úmida, usa pra secar a achavasca —, removi umas pedras, e cavouquei a água toda com a palma em concha da mão, e fez um barulho, como quando a minha gata mete a lingüinha no pote e toma de pouquinho, um gole trás do outro, no meu quarto-crescente, é pela manhã bem cedo, e eu me ponho a contar as linguadinhas dela, mas logo perco a conta, pois a bichaninha, além de fofa e dengosa, é muito rápida. Acordei daquele sono quebrado pela sede da gatinha de manhã mal acordada. O marciano me pergunta: “para onde vais, vindo assim de longe, com a nossa água salobra? Queres ficar jovem ou queres ficar verde? “Não não, não quero ficar nada, fui apenas alvejado por uma chantagem...” Não é por nada, não é pra te enganar, mas isso daí não vale é nada, nem pra matar a sede, nem pra fazer aborto: ele olhou e me viu no fundo dos meus olhos: ‘a tua mulher... é doida, né?! E tu... Transas de luz apagada, por um buraquinho no lençol?’ Vai dizer à Fátima: esse vermelho barrento — não o vês? — não passa de água de poça.”

 

 

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