Denuncie esta foto
saulokrieger
São Paulo - SP
 

Argh! Que que é isso? Água benta benzida por padre pedófilo?

    Argh! Que que é isso? Água benta benzida por padre pedófilo?

 

 

Águas de Marte

 

   Parte  I

Foi-se o tempo. Como tudo passa, foi-se o tempo do champanhe francês —   qual qual? Perguntavam os patos e os fanhos à beira do riacho, na pesca — Qualquer um —, do Veuve Clicquot, do Moet Chandon, do Krug e do absinto, de um bom Casillero del Diablo. Algo também já disse sobre um certo cálice de vinho do Porto, que após uma tarde sufocante de verão embebeu uma chilicosa toalha de brocado — coisas de tia-avó querente de nada, cansada de vida e de morte.

Todas as águas viscosas visguentas inodoras través de gargantas de deus e diabos, tempos que passam por vidas e vice-versas: tenho sede: maravilha! Lembrei à Kal que o Cristo, no píncaro do Gólgota, da cruz e do sofrimento, o corpo talhado-alquebrado, por fim de tantas as coisas sentiu sede: lhe deram vinagre, ele pungiu-ardeu-inteiro e definitivamente botou a cruz no mapa das coisas-de-todas-as-coisas-lá-onde-o-nosso-Deus-está: por que a cruz e não o Nada?  

Nem nada, não foi de nada. Eu lha disse, para ela, Kalcinéri, vulguéri, toma aqui a tua água Perrier, para ti não compro Minalba nem mesmo a Evian. Ela sacou da garrafa, tirou-lhe a tampa com gesto brusco, despejou tudo sobre um cálice finíssimo-inadequado — é grossa do copo de geléia —, como quando a viúva pobre quebrara um vidro de perfume caro na cabeça do Cristo, e disseram: “desperdício!”. Kalcinéri é — é estrupício. Entornou: garganta: “vou fazer um gargarejo... Argh!”. E cuspiu tudo fora, fustigando a parede coberta de um papel de floresta temperada quase boreal de mil-novecentos e bolinha — lembram? Nem lembrou do Cristo e seu vinagre, de nada valeu o que eu dissera: “Argh! Que é isso? Água benta-benzida por padre pedófilo? Restolho de água de aborto? Mênstruo dormido da bispa Sônia, após a menopausa? Sai de mim! Eu tenho quesila! E eu não quero disso não... Nem pra fazer um gargarejo serve!” O que faço agora? Ela tem uma carta na manga? Se eu não fizer o que ela quer, conta que eu transo de luz apagada e com furinho no lençol — arre! Não sou perfeito... E lembro de quando criança, bebíamos de uma água mineral mui pura mui pia e famosa, de nome “Da Guarda”, proveniente de lá de um profundo grotão rochoso da porção meridional de Santa Catarina, a imagem era bem a de uma santa — estarei certo? — antes de esquentar e sulfurar a todos, inundar uma cidade inteira em banho de águas mornas. Dizem, eram afrodisíacas. Os velhotes abriam um jato firme, como não eram eles, deixavam a água escorrer sobre as partes pudentas por horas a fio. Saíam de lá não exatamente pelas paredes, mas algo assim-assim e satisfacientes.

 

Que nada: a Kal-Kalcinéri Vulguéri ouviu falar a Fátima do Jornal sobre uma certa água de lua, de Marte: fechou o tempo: “eu quero! Eu quero essa água de Marte! Vou beber tudo!”. “Mas Kal, qual! Essa água vem lá de um profundo grotão qualquer do pólo norte de Marte!” Não não não! Pólo Norte é marca de pele, e eu não quero água Evian, não quero água Perrier, filtros Europa nem morta, Minalba eu dei tudo pra velhinha do terceiro andar, disse ela que em outras não confia, ‘que confiar o quê! Tá com o pé na cova, vai-te beber água de poça, ô velha!’”. A velhota ouviu, viu, entendeu, achou estranho, que a outra devia mesmo estar é perturbada. “Sabe do que mais? Eu vou te dar uma água mineral completamente especial... A nascente fica num lugar assim, uma favela, sabe como é?, mas é tudo limpinho, coisa-de-primeiro-mundo”. E eu pra ela, se não der, ela conta... Que eu transo de luz apagada e por um buraquinho no lençol, e do outro lado do lençol...

 

“Chega-chega-chega! Não quero água de poça, nem benta, não quero água de aborto, nem o resto dela, não quero água de favela — Evian! Mando tudo pra puta-que-o-perrier!” Águas de Março-águas de Marte, me dá um copo cheio de água de Marte! É da lua ou é de Marte, se é da lua não é de Marte, certo?

“Errado, é de uma lua de Marte, que Marte também tem lua, que lhe fica urubuzando, como em ti essa vontade louca de beber água de Marte”.