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saulokrieger
São Paulo - SP
 

e meus olhos, na direção do espelho da penteadeira, rabiscado em batom grená

e meus olhos, na direção do espelho da penteadeira, rabiscado em batom grená

 

                       O incrível golpe da  Mulher-Escovão

 

 

Eu sou... Um ex-gay, viado-lesbicado. Mutante. Quer dizer, eu não sou mais nada, eu fui... Que importa, caralho?! Um gay convertido ao lesbianismo pela Mulher-Escovão, isso que eu sou... Recuperado, já deixei de ser a minha essência mesmo. Sou um ex-escorrega-no-quiabo, ex dá-ré-no quibe, ex-esconde-a-mandioca, tudo ex, tudo ex, ex-transforma-coca-cola-em-fanta... Sou tudo ex, graças ao poder mágico do brilho labial sabor tutti-frutti neo-male-transformer da incrível, incomparável e inconfundível... Mulher-escovão. Uma tal de... KalcinÉÉÉÉÉÉÉÉÉRI. Kalcinéri-mulher-escovão-recupera-viado... Ela é mais um fruto... Um produto, uma criação, um frankstein... Daquela Dra. Juli... Aquela, que voltou à aparência de seus 15 anos, graças a uma poção científica criada por sua grande, enorme, imensa inteligência. Sim, enfim, a culpa é toda daquela Dra. Juli — a vaca fez de mim mais um mutante, um viado em mutação-transmutado, viado-lésbica-não-sou-nem-curto-afeminados. Mas todo mundo me pergunta, afinal, como tudo se deu... Ó, foi assim, que nem... Sei lá, ela me apareceu num Chevette, num Chevette vermelho, me pegou na esquina da General Jardim com a Rego Freitas, disse que era amiga das gay, que ia me apresentar prum tal de Joselmo, que era de ficar trege, tipo assim, ia ter uma feira da fruta, uma festinha... Uma festinha do balacobaco, uma festinha íííííííntima... Num quarto de hotel de quinta. Eu, tipo assim, sempre adorei um hotel barato, um prato feito, um pão com carne, um pão com ovo, sempre fui uma bicha, tipo assim, intelectualizada, e foi daí que ela me levou prum quartinho de hotel de quinta, e eu topei. Era hotel de trepação mesmo, de viração, tinha duas opções, com lençol limpo e lençol sujo, daí que ela tirou da frasqueira uma terceira: sem lençol nenhum, que devia tá tudo esporreado mesmo... Daí o tiozinho falou: isso nunca aconteceu por aqui... E ela “mas muita coisa que vai acontecer hoje nunca aconteceu por aqui nem em lugar nenhum...” E eu nem esperava que era uma coisa, tipo assim, viado virar macho, mas era. Daí fomos subindo, subindo, a escada trepidando, e a tal da Mulher Escovão na minha frente, cadeiruda, rebolando, rebolando, pra lá e pra cá, e eu fui ficando, tonto-tonto... Fui entrando naquele clima, e já nem lembrava que ia ter Joselmo, os bofe, feira da fruta, festa do balacobaco, nem me toquei que eu pudesse estar perdendo o meu tempo e, mais importante, o meu cabaço, sim, porque eu era cabaço. Só lembro que ela, aquela tal de Kalcinéri-Mulher-Escovão ia rebolando, rebolando, e percebi que aqui e ali ela ia xingando tudo que era viado, e eu nem tchuns... Daí chegamos, ela me empurrou em cima da cama, tirou a capa preta, tinha uma roupa de Mulher Maravilha por baixo, e um cabelo loiro-loiro, meia tarrafa, e foi tirando, e me mostrando aquela coisa toda, horrível-horrível, botou a achavasca bem na minha cara e disse: “come aí, viado! Come aí!”. E começou a escovar aquilo na minha cara, cada vez mais perto, era muito pêlo e muito grelo, e esfrega-que-esfrega e me dizia: “é hoje que tu vira home! Sua Faaaaaanta! É hoje! Depois desta tu vai pegar até a Marília Gabriela! A Gabi! Gianequinha! Virasse macho! Tás fudido!” E imediatamente comecei a sentir uma coceira no saco, e passei a me coçar... E a fazer o trabalho sujo, enquanto ela ficava com aquele grito de guerra: “come logo, viado, come aí!”, e foi me aplicando uma trás da outra, sete chaves de buceta, e eu gozando, ela fofava, e eu gozando além da conta, e do resto em lembro pouco, lembro pouco do resto daquela noite. Quando acordei eu caí “em si”, e meus olhos, na direção do espelho da penteadeira, todo rabiscado de batom carmim-grená. E li: “Fudido! Bem vindo ao mundo hétero! Foi bom pra você?”. Nisso eu ouvi passos salpicando escada abaixo,   e vi que ela teve o desplante de me deixar uma "veja-só" polchete, uma "olha-só" camisa xadrez e uma calcinha-freada-argh-maldita, pulei em cima da calcinha freada e tudo, afinal de contas, eu tava louco por ela, corri para a janela de vidros que eram um encardido só, "ah, escovão pra que te quero...", pensei “tenho de lembrar dessa figura, ver mais uma vez, fazer B.O., exame-corpo-de-delito”, e tudo o que eu vi foi aquela mulher de botas cor-de-laranja se equilibrando pela rua, me dando tchauzinho, apontando a sua precheca e rindo, rindo descontroladamente, até sumir, virando a esquina. Fui para o banheiro lavar o rosto e me recuperar da surra-de-buça. Sentei no vaso e vi mais uma inscrição de batom na parede de azulejo branco, lascado, ela dizia: “Eu sou a Mulher-Escovão, Kalcinéri Kühn, sim, com trema, bem aí onde você está sentado”. Não sei se fui mesmo vítima de uma lenda urbana ou de uma egressa da novela Os Mutantes. Só sei que foi assim, nesse dia, que eu lesbiquei.