Nada que você não queira
Mais — além de ser um prazer seria uma honra ser o seu primeiro, a ser contigo em um lapso, um instante prolongado em que, por vez primeira, deixarias de ser. Você sabe quanto, você sabe até que ponto o gozo é desfazimento, deixar de ser, desprendimento-um-quase-morte? Pois pois. Natural ter-se ânsia por um como se tem medo da outra, e não me pergunte sobre a outra, que é sem nome. Alçar-se às paredes pelo gozo, esparramar-se de morte. E o que não é esparramar-se enquanto vive? Ou não se ter um por medo à outra (não, nem me pergunte pela outra, nem pelos aléns que não existem, mas eu deles cá me acerco). E tu, poréns? Você? É viver infinda infância da carne que não envelhece, que não se remete a nada — e que não goza. E por isso e bem por tudo isso eu serei nada feito o nada além da morte, hei de fastiar-me com somenos, com tão menos: quase o primeiro que você viu, o primeiro que o refletiu, em que você se descobriu, em que você ao longe, de longe, de todos os longes da terra... Deleitou-se? O primeiro que você quis ao não se querer, ou nem tanto, ao querer-se, menos. Eu o convidaria a sair, a um passeio a nos fazer algures à beira do Itajaí, e, não, não pegaria em sua mão, como não farei — nem isso, nem aquilo, nem o que você teme, o que imagina, ou deseja, nem nada que você não queira.
Sentaremos à beira, lado a lado, e quererei tudo ou nada conversar, sobre tudo sobre nada — mas de nada que você não queira. E minha mão serei eu, onde estará estarrecido o meu pensar, avançando lento, rastejante feito serpente; como se fosse ascese, desejo cru, voragem confessa, confusa de si — serpenteá-lo? Mas nem nada — nada que você não queira. A correnteza à frente o fará mais homem, e de mim, mais velho, talvez a erodir o abismo de nossos anos — havendo o que houver, e estritamente o que você queira, o rio será o nosso descalabro. E você decidirá, enquanto aguardo a correnteza. Será hesitante, serei espera, e você relutará em meu ser intérmino paciente. Enfim por mim não serei nada, nem ousarei, não lhe serei incômodo, estorvo ou moléstia de espécie alguma. Antes seria seu objeto, mas todo tato, todos olhos, sôfrego, relutância pensadora e pensatriz — ainda assim, mesmo sujeito, seu objeto — objeto, sim, como um objeto não pode ser, eu objeto, eu me objeto — eu, abjeto? — serei a revelia de mim, até, quiçá, enfim, em nome de toda probidade, antes isso — mas nada que você não queira nem saiba não querer.
Como sói aos objetos, móveis por forças alheias, como sói aos juncos que se curvam, curvar-me-ei para o seu corpo a ponto de alquebrar-me, ainda que por um instante você me queira completamente ali e sem metáforas. E alquebrar-me para entender um pouco da sua miragem a ponto de me desdobrar, e de sua ínfima sinapse, a ponto de esquecer-me. Serei o seu anagrama, sua antimetátese, seu dialelo: o outro lado da letra, o outro lado do tempo — de 41 serei 14. Tudo isso farei e deixarei que você faça e me desfaça olhando o rio. Tudo serei em um instante inaudito. Esperarei o momento decisivo sem contar as horas, ainda que ele não venha, inda que eu me canse de contá-las — serei o que não cansa, e por ti um serafim saciado. Quero vê-lo feliz, como estivesse com uma mulher, o outro do seu sexo — um, outro; tudo: nada que você não queira.
Se quiser promessa, eu a serei. Se por você um desabafo, sou ouvidos. Se irrealidade, fantasio. Se sonho, desvario. Se travesseiro, eu o refestelarei. Se comida, hei de regalá-lo. Se espelho, sua imagem, se desejo, miragem; se futuro, amanhã. Se mais velho, seu irmão, e se um mais velho, um velho e querido pai. Se um regaço, sua mãe, se um colo diferente, a tia que vem de longe. E se um xingamento, serei sua vó — morta e torta. Se por onde você escapa, do que eu quero escaparei. Eu tentarei, não sou nem serei aquele que molesta, aquele que constrange, nem lobo, nem seu gato sorrateiro, invasor ou assalto — serei tampouco tão pouco. Muitas coisas deixarei de ser, sem mais, serei a despeito de mim. Serei somente serei apenas, inda que surda e cega presença. Deixarei de ser e pensar que sou. Simples, assim — nem nada: serei tudo o que você não veja, que você não saiba, não respire, não perceba: tudo isso eu serei deixando de ser: mas não serei não farei nada que você não queira.