Raíssa Photoshop — Modelos em pelotas (parte II)
Bom, daí depois, pra eu não ter de voltar pra casa, aquele padrasto medoooonho, sei lá, era o cu da cobra, né, andava pela casa em pêlo, só de guaiaca e uma cuia de chimarrão emborcada tapando os culhão, ele era um guapo, mas eu achava um lambão, e foi juntar os trapo com a minha mãe, bah, antes ela tivesse arranjado um macanudo, eu queria mais que ele esticasse as canela, se eu pego gosto por padrasto eu fico pervertida, nééé? Eu pegava uns bolo de bergamota, uns chocolate de Gramado, o que não faz a carência, néééé? E ia pro cyber entrar no meu orkut falar com uns guri... Daí eu ficava comendo e mandando pra todo mundo aqueles recados bem, bem de raxa, sabe como é, né? [e desfia os recados de raxa:]
“Bah, guri, espero que tu tenhas uma ótima semana, beijinho, na buxexa, Raíííssa, néé”, ou “me add aí, guri, te achei liiiiiindo” mandava pra um, pra outro, pra um monte de cara que eu nunca vi mais gordo, pedia, exigia, “bah, tchê, tu nunca mais passou na minha página me deixar um beijinho em cima, um chupão em baixo, né?”, ninguém passava, ninguém deixava, não respondia. Típico recado de raxa, sabe como é, néé? Raxa-carente-desocupada. Eles acham que menina assim é tudo ninfeta, mas a priori a gente é tudo umas arrombada , né? Mais do que casa abandonada na beira da free-way , néé? Mas amizade é pra se cultivar, néééé?
E outra coisa que eu fazia muito lá no Sul, eu mais minhas amigas, sempre que eu ganhava uns pilas deixava os gaúcho me cobrir, ganhava umas prenda nova, uns pano novo, sabe... Uns escorado, uns escarpim, umas calça capri, eu tava gazela de tão magra, bah, eu me ficava toda na pinta, sabe como é, e ia na rodoviária, que era nova, antes era só um paiol, nééé? E eu ficava no maior footing pra lá e pra cá... Por que não tinha shopping, coisa de cidade grandEEEEE, eu passava na lancheria e ia na rodoviária, dava uma batida de perna sagaz, danada de boa, sabe como é, né? Peãozada ficava tudo babando, diziam “bah, mas esta mulher é uma égua”, sabe como é, nééé? “bah, mas que potranca, Virgem Santíssima!”. Daí eu fazia o maior cu doce pros gaúcho, nééé. Até que um piá me pegou de jeito por trás no banheiro, o bilau dele saiu açucarado feito doce de leite, nééé? Isso é que dá... Daí eu dei, néééé”.
Eu sou o biótipo da mulher brasileira. Loira e com um corpão! Todas-são-todas-têm! Não é porque este schlaque 38 não me entra direito, nééé? Eu vou tomar uns chimarrão com herbalife, comer uns churrasco no fubarim, eu vomito na patente e fico de corpitxo trichique-trilegal. Só que me disseram pra eu não me expor muito sem photoshop, senão, bah, guria se queima, nééé, daí não dá.
Daí começaram a chamar pra eu participar de concursos de brotinho, lá no Rio Grande tem muita, muita mulhé bonita, sabe, né? [sempre com a entonação insuportavelmente gaúcha] Daí eu fui, néé... Eu fui ganhando, e foram chamando... Rainha das Piscinas, Rainha do Capão da Canoa, Rainha da Festa da Uva, Garota Paiol, Guria Vacaria, Te-Pego-na-Churrasqueira, Garota-Égua-no-meu-Curral, Garota Fácil da Porteira, Garota-Tu-Tá-Podendo, Garota Bagé, Potranca-da-minha-Campanha, Égua-do-meu-Pago, Guria-pra-Tira-Cria, Guria-do-Cata-Cavaco, tudo pitoresco-da-terra e com muito baile de vanerão pra tirar uma lasca de boi na grelha, nééé... E eu ia ganhando tudo porque as guria eram umas colona d´umas plantadora de fumo , só o problema era quando eu voltava pra minha cidade, néééé? Sabe como é, não tinha caminhão de corpo de bombeiro, essas coisas... Me botavam lá em cima de um caminhão de carregar boi, né? Tiravam as vacas, os bois e me botavam lá, tava tudo empesteado, e eu desfilava assim pela cidade, criolada é falsa, gaúcho e catarina porcalhão sabe como é, nééé? Pela frente me chamavam de égua, de flete, potranca, e de vereda, naquele entrevero, por trás chamavam de vaca, sabe como é, né? Diziam que eu nunca tinha sabido distinguir o capim do feno, béééé ? E que meu lugar era no curral, mesmo, néé? Barbaridade, isto não se faz com a guria... Ficava triste, me enchia de conserva de Pelotas... Despacito eu vi, não isso não é lugar pra guria aqui, nééé? Bem que me disseram depois lá na agência, em São Paulo, pra sem photoshop eu não me expor muito, senão guria se queima, nééé?
Pois é, daí me deu na veneta, eu botei o pé no estribo e vim pra São Paulo, né... Porque no Rio Grande só tinha comercial de sabão-sabonete medicinal pelotense, usa pra boi e vaca, usa pra gente também, sabonete sarnapim, pra piolho de vaca, guria se queima, néé? Eu vim com um caminhoneiro, que no Rio Grande tem muito danado de bom, cunhado do primo do meu padastro, na boléia, paguei o frete na boquete, porque eu não tinha plata nas guaiaca, né? Vim ser modelo... Eu dizia, bah, eu sou gaúcha, nasci em Pelotas, na agência me diziam: puxa, Raíssa, pois é, tu tá com umas pelotas de-mais, tenta botar um fubarim na comida pra ver se tu vomitas um paiol inteiro, nééé... E não vem pensando que tu és uma Giselle, uma Ana Hickmann, que a gente tá abusando aqui no photoshop pra te vender enquanto tu não perde as banha, e eu dizia: Bah, sabe o que é? Eu sempre fui potranca, mas de tanto comer ambrosia da campanha, doce lá do Rio Grande, fiquei com o peso do meu porco... Eu sei, preciso ganhar uns 20 milhões de pila pra ser uma Giselle e perder uns 20 quilos pra ser uma Chimanato, esticar uns 15 centímetros pra ser uma Ana Hickmann, sei que tá sobrando naco de carne aqui, tô feito um churrasco bem gordo, mas eu sempre me estico, eu me penduro, levanto os braço faço biquinho, daqui a pouco eu tô lisa feito um charque, né? E na agência: "olha: um mês de chimarrão com herbalife, pra ver se tu secas!". E fora o seca-daqui-seca-de-lá eu já armei a maior peleia com os piá da agência, néé? Porque eu sou raçuda aguerrida, sou potra fogosa, ando para cá e para lá nesta cidade atrás de trabalho, chego em casa, tiro a botina, os pés ficam fermentando, nééé... Eu chego, “e lá vem a gaúcha, de faca na bota, tchê!”. Lá na agência teve uma perua, uma tal de Kalcinéri, parecia um traveco, alta num chapéu que parecia um sombrero, ficou me olhando de cima do ombro feito boazona, porque faltava eu perder uns quilinhos, daí eu disse pra ela: “Cachooorra-cadela! Chechelenta! Gansa-filha-de-uma-égua”. E no bastidor do desfile, porque eu fui de nariz-de-folha, nééé, peguei o salto do sapato que ela ia usar, deixei soltinho, soltinho. Ela rodopiou três vezes na passarela, ficou rodando rodando [e se estraga de rir] e caiu duas, foi tridemais a guria caindo! Eu não desfilei ainda, sabe como é, eu quase não tenho pescoço, como ainda não perdi os meus 20 quilos, nem cresci uns 15, tudo pra ficar um pau-de-vira-tripa, então, mas tenho fogo nas ventas e dei em fazer um penteado assim, bem alto, nééé? Daí me disseram “guria, tu bateu na tampa! Vais te vender como perua!” Barbaridade! De égua e potranca passei direto a perua. Agora fudeu, né? Do curral passei direto pro galinheiro e nem um pouco de passarela... Por que isto não é justo a nível de pessoa que se é! [A ênfase da fala é em "juuusto", não no "a nível de"]. Aqui me querem esquelética, lá no Rio Grande é peituda e sem cérebro... Isto não é justo a nível de mulher que se produz! [Ai, ai, minha Simone de Beauvoir — aquieta-te em tua tumba e contenta-te com os ossos que te restam, com o ranger de dentes que tu mesma renegaste: existas!]. Pr’os meus pagos também não volto, não sou xerenga pra se dispensar assim... E agora eu vou sair um pouco, porque aqui não tem photoshop, eu não posso me expor muito, guria se queima, nééé? Deeeu.
[Raíssa, chega, já reclamou demais, deu pra ti, falta muito bom humor pra chegar aos pés de uma Fabiana Semprebom... Diga “adeus” ao microfone]
Bah, tchê! Adeus, microfone.