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saulokrieger
São Paulo - SP
 

E ria, sem jeito, sem graça, mostrando até dente de ouro

        E ria, sem jeito, sem graça, mostrando até dente de ouro

KALCINÉRI, RAINHA DO DESMANCHE, parte II

(começa na foto do dodjão)

 

 

 

             Ah, se eu pego aquela Bisca... Vai ciscar até ficar zarolha! Por que não me falou antes? Procurando bem... O carro era meio velhinho, sim, do estofamento pulavam molas, enquanto eu queria uma coisa “couro’, sabem? E ele disse “é bom, pra não ‘dispensar’ suspeita, né? Essa onda de seqüestros tá um horror. E tirou debaixo do assento uma garrafa e disse: uísque escocês... Todo num riso em branco e preto-pulemos-esta-parte. Tomou do gargalo e deu num copo de plástico pra mim. Eu fui bebendo, afinal era caro e bom. Mas o carraço, bem no começo eu tava toda boba, dizendo “sempre quis andar de limusine, fazer um drive-in banco de trás, ai molhei!”, mas daí eu vi, senti, faltava couro, faltava cheiro bom, faltava-que-faltava, batia daqui batia dali, mas que porra! A limusine era um dodjão velho, e o dodjão era uma banheirona, isso é que ele era. A Cisca tinha antenado, e nem pra me falar, aquela Bisca... Puta-carro-de-bandido! Na época da minha vó aquilo devia ser carro de rico. Fiquei com um pé atrás, mas ele riu meio sem dente, desviei o olhar, tem de olhar pra frente, sempre, né, e ele me disse: “É pra não “dispensar’ suspeita... Muito seqüestro no Rio de Janeiro... Fico igual ‘aos mano’”. Eu concordei — ah, como tinha sido boba: rico é rico porque é esperto inteligente, né? — e perguntei: “É blindado?”. E ele: “Mas é claro... Ocê viu aqueles buracos de bala? Nem me atingiram... E assim ainda fico como ‘os mano’” — ai, ai. Daí fomos chegando, chegando, a estrada trepidando, uns buracos, o carro balançando feito carroça velha, e eu disse “bom, podia pelo menos ter trocado os amortecedor, né? Eu sou moça fina... E ele... “Ocê parece aquela da novela... Djenane Machado!”. “Quem? Eu, hem... Bota uma música alta ‘Nuiórque, Nuiórque...’, que eu quero fritar”. E ele: “Sabe como é... Não, não... É pra não ‘dispensar’ suspeita! Daí eu fico como ‘os mano’”. E ria, sem jeito, sem graça, mostrando até dente de ouro — opa!. Tá, tá bom. Daí... Daí... Passamos tudo que era bairro fino, classe média alta, altíssima, estrada de curva, de subida, e nada de chegar. Eu vi uma placa: “Rato Molhado”. Pensei: “Hum, molhada é que tô eu... Por dentro e por fora...”. A paisagem ficou meio favelosa. Pensei que fosse de passagem. Vi outra placa, não, era uma pichação: “Isto é Brasil”. E não é? A paisagem ficou igual... Favelosa, favelosa, ele me disse “quase chegando”, e eu “ai, meu deus, a coisa tá ficando feia”, e ele “sabe como é, os mano... Quem muit’ostenta vai que se lamenta...”, Pois é... E eu já tava conformada. E ‘”pô, o hômi é um cara cabeça, né? Vir morar aqui? Deve ser artista...”. Até que ele me pára na frente de uma coisa, pouco mais que um barraco. Barraco coisas boa, de alvenaria, “material”, como diz lá no Sul. Olhou nos meus olhos antes de sair e disse: “Moça parece muito com a Djenane Machado...” “Ai, meu deus, quem é essa de que ele tanto fala? Bebeu? Me levou lá pra cima, pra ver o céu... E disse: “Gostou da minha cobertura?”. E eu, “Tá cobrindo o quê? Sei lá, assim também não... Isso é só uma laje, pensa que eu sou boba, malandro? E ele: “Moça, ocê parece uma artista, pensa na poesia, é noite de ‘revelion’ (e eu vou traçar ocê)”. E despejou mais um pouco daquela engronha e foi dizendo: “Bebe, tudo, bem, bebe tudo... Isso... Qual é a sua graça mesmo?”. Eu já tava grogue, mas não sou boba não... Pensei em rezar uma pra virgenzinha de Guadalupe, dizer a ela me salvar que eu tava ferrada. E ele emendou: “ué... Mas garotas como você gostam, aquele programa... ‘garotas da laje...’ E eu aqui fico como os mano... Ninguém suspende ne mim , né?”. E me deu mais um pouco daquele uísque... Era de matá, mas tava bom... “Deixa eu te senti, gata...”. Nunca tinha bebido um uísque escocês assim da Escócia mesmo... Uma coisa “encorpada”. “Bebe tudo, bem bebe tudo”, foi falando. Aceitei, mas disse “não, não não... Laje, não!”. Eu quero uma coisa alto nível. Já nem o carro deu no coro. Daí... Daí ele me levou pra casa dele, embaixo, tinha tudo de Bartira e Marabraz de vinte anos atrás, ou seja, caindo, bem devagar... E tava tudo... tudo... Às escuras, não fossem as velas: Muitas velas, pela sala inteira, até no quarto... Sala, quarto e cozinha sem pia. Nem banheiro junto. “Eu perguntei: “Onde ocê caga?!” E ele apontou para uma pilha de jornais e disse: “Faço ali e jogo pela janela, oras... Os mano pegam... Eu pago!”. E tentou revelar o peito coberto ouro. Foi aí que eu vi um alçapão, e fiquei mais aliviada: enfim, status: “Ah... Então você tem... Uma adega?!”. E ele: “Mais ou menos... No momento ando alugando pra cativeiro... Sabe como é, os mano...”. Engoli em seco, tentei alcançar o celular, na alça da calcinha, e cadê a calcinha?! Cadê o santo forte? E o amuleto de Ogun? Nunca jamais me sentira tão... pelada! Mas ele disse: “Relaxa... — e como se eu fosse gringa: — A-mi-go ...”. Mostrou as mãos livres, desarmadas, não fossem os anéis e os dedos. Apontou a finèsse do ambiente à luz de velas. “Gosta? Romântico?”, perguntou e tilintou os ouros todos. E eu: “ocê não pagou a conta de luz? A gambiarra zicou de vez? Não pagou... ‘pros mano?’”. Ele disse, meio sem dente: “É romântico...”. e me deu mais um gole daquele uísque... Sei... Cachaça com vinho sangue-de-boi. Foi desabotoando a calça. Saltou uma cueca rasgada cor de abóbora fosforescente, que tudo à volta se iluminou, e a bebida me deu angulhos. Eu tava batendo pino. Nisso, lá fora, veio o que faltava: tiroteio... Ele disse: “Os fogos... Horário de verão... Os mano... Paguei pra você, minha jabuticaba...”. Senti a cabeça girar. Ai, meu deus! Ruanda-Somália-Sudão-Burundi-Libéria-Haiti-me-tira-daqui! Olhei em volta, velas por toda a parte, e perguntei: “Ué? Cadê a galinha?”. E ele, meio alto, rindo: “Taí...”. E eu: “Cadê a galinha preta?!”. E ele, enrolão: “Tá aqui...”, e foi me dando mais um gole daquela coisa. Eu subi nas tamancas. Puta? Eu tava pra lá de puta” Dei, sim, eu dei um tapa naquele copo de plástico, voou aquilo, voou garrafa e tudo na cara dele, no teto, pintou a parede sem reboco. E ele: “Não falei? Parece artista!” Pra quê... Esbravejei: “Fudido! Sai pra lá, macumbeiro! Desgrama! Me leva embora pro Leblon, Faria Lima, Copacabana, raio-que-o-parta! Não sou petisco pra tua boca sem dente! Não sou rameira pro teu puteiro! Não sou galinha pro teu despacho!”. Foi daí que eu desci do salto, caí de quatro e me ralei, ele tentou me cobrir como se eu fosse égua, subi, dei-lhe um safanão tonteei e dei no pé, correndo daquele morro, sob uma rajada de balas, em pânico de montanha-russa.

 

 

 

Saulo Krieger

saulokrieger@hotmail.com