KALCINÉRI, RAINHA DO DESMANCHE
Olá, pessoal, ai, já é Carnaval, e a entalada aqui nem saiu do "reveLION": como foram de “reveLIÔN”? — Foi uma coisa assim “in” ou terá sido “oooommmmmmmm”? Foi out ou foi over? Foi sem ou foi com? Ou foi bom? Foi ou não foi? Foi mais ou foi menos? Meninos... Eu queria que o meu tivesse sido feito uma transa com adolescente bem tímido, respeitoso, cerimonioso e tarado: entra e sai tão rápido, vai e acaba, você nem nota. Não foi. Foi uma transa esperada que não deu. Sabe como é? Às vezes a roubada é tão grande que nem Uri Geller na TV faz virar pro outro lado... Zica! Zica e mais zica! Bem que a Paris tinha me dito: “Nada de ‘Couapacabena’, hem? Revelion é Jurerê, amiga, com as fina, com as top... Floripa”. Agora já foi. Se entrar com o pé certo conta, eu já risquei do caderninho. Ricar que é bom? Nada...
Foi assim que nem:
Eu, mais a Maglécia e a Lene Bisca, bem, eu me vesti toda de branco, parecia daquelas macumbeira, e fui pra Copacabana ver os fogos, pular ondinhas e jogar umas porcarias, para Iemanjá (e poluir aquela porra ainda mais). Ah, fui cheia de oferendas, muita fruta podre, muito arroz, muita sidra cereser... Flor? Nada de flor de plástico-artificial, que é coisa de gente sem caráter. A Maglécia passou no cemitério do Caju e fez a limpa. Veio com uns troço meio murcho, mas OK, da morte à vida é um passo, né? E o resto? Disseram: “A Iemanjá” não é fina que nem nós, pra ela vale qualquer coisa, leva que é tranqueira!”. E eu levei, tudo o que tava podre na dispensa. Ah, e sal, porque é barato. De pegar de mão cheia. Fui pra jogar o sal “tudo” no mar. Que champanhe? Acham que eu sou louca? Veuve Cliquot fica pros bofe. Muita, muita sidra cereser, porque é baratinho também. A Lene Bisca falou: “Ai, essa marca é muito boa...”. Boa? “Docinha, né?” Só se for pra você!
Logo de saída, na Pavuna, pegamos um caminho meio diferente, daí, o que vimos: uma encruzilhada em “T”. A Lene disse: “é nesta”. A Maglécia: “É agora, toda calma nesta hora, que nós vamos arrumar marido”. Tudo de volta pra casa, pegamos uns pratinhos, arrumamos uma comidinha, fomos botar naquela encruzilhada em “T” de “tesão”. Pra quê? Lá de cima de um prédio, viram as três marias de branco botando angu-do-bem na encruzilhada. Começaram a gritar: “ê, macumbeira! Ê macumbeira!”. E nós gritava : “Vão se foder! Vão se foder!”. Ora essa! A Maglécia gritava: “Kal! Bota! Bota o nome dele na macumba! Arrebenta!”. Boa idéia... Mas pera aí, você lá sabe o nome dele? “Moço, como é o seu nome, aqui pro despacho? Ele não disse nada. A cortina se agitou nervosa. Ninguém pode com o poder do além. E “macumbeira! Macumbeira”. “Xinga mas tem medo, né?” Gente xucra! Sem talento, sem raiz! O Rio tá muito moderno... Nem arranjar marido a gente “se” pode!
As três, putíssimas, entram no carro. E “cadê” de o Fiestinha de segunda mão pegar? Bem, eu sei que você, leitor, é do tempo em que Fiesta era nome de revistinha de sacanagem. Mas hoje é carro, viu? Só pra avisar... Eu olhei para o afogador completamente puxado e perguntei pr’a Maglécia, a barbeira: “Maglécia, você sabe o que é isso? Você sabe pra que serve isso?”. A Lene Bisca, cisca, tenta botar panos quentes: “Eu conheço um mecânico 24 horas, o Zé Picão. Ele sempre me atende de graça.” “Que Picão, o quê?! Vocês duas são o fim da picada, isso que vocês são”, ribombei. E a Maglécia: “Bem, não sei pra que que serve aquele ‘coiso’. Em todo caso, eu uso pra pendurar a Luis Vitton que eu comprei na feirinha de São Cristóvão...”. Ah... Puta que o pariu, sua anta! “Ué você queria que eu a botasse onde?” “Eu não quero nada, eu só quero me arrancar daqui!”. “Táxi! Táxi! Siga aquele carro...”. E o seu moço: “Que carro?”. “Ora, faz diferença? Estão todos indo pr´aquela porra mesmo... no caminho, no carro, Zona Norte já-pra-trás-graças-a-deus, muito engarrafamento, muito buzinaço, maior stress, tinha carro do lado cheio de bofe, daí a gente botava a lingüinha assim pra fora [e mostra], a homarada ficava boba, boba, mulher, e das boa, não é fácil, né? Daí a gente passava na frente deles... Só assim deu pra ir do túnel Rebouças até lá: eu fui me babando toda, a gostosa! A Lene Bisca-Cisca só dizia “pááára, que eles vêm atrás”. E eu: “ah, é? Uma gataria dessa, vai vir atrás logo de nós?” “Pois vêm, dizia ela. E eu sou uma mulher direita!” Tá. Então cisca.
Bem, bem, daí nós cheguemos , daí nós chegamos. Muita multidão. A Lene Bisca não tava mesmo boa, disse “não, vamo desaqüendá daqui”, eu disse, “que nada, te se joga!”. Abri caminho no meio do povaréu, dizendo “saaaai, porra! Que eu tô menstruada e checada!”. E todo mundo achou que era motivo pra sair, saiu e deixou a gente passar. Daí deu aquele foguetório todo, que não acabava mais, a Maglécia teve medo... Sabe cadela com medo de foguete? Au, au.
Daí... Daí... Na hora de pular as ondinhas veio uma onda gigante muito grande, parece que um foguete pegou lá embaixo e deu um maremoto, veio aquela onda gigante muito grande, eu disse pras meninas “lá vem elas”, a Maglécia gritou: “Titanic!”, a Lene Bisca matou: “Tsunami”, “isso mesmo: tsunami em Copacabana em noite de revelion”, e schuuuáááááá, veio a onda e deu um belo de um caldo em nós três mais num pessoal que tava lá. Foi babado. Eu engoli um tanto de água do mar com mijo e sidra cereser que não foi mole. Ah, ainda vi uns chokito boiando. Nojeira, né? Deu nojo de engolir aquela água. Comecei a tossir “coffe, coffe”, uns gringos ali perto disseram: “A moça precisa de um café!”. Eu disse, não, moço, “coffe, coffe”, eu preciso é de um beijo na boca, “coffe, coffe”, dá senão me afogo! Mas eles não se interessaram por mim, por nós, também, eu já tava com a maquilage toda borrada, mas o vestido tava bem assim sexy-disque-putas. Molhou tudo, claro, e eu sem calcinha, que a madame Zora me disse: “Vai sem que no ano novo tem”, e o vestido já era transparente mesmo, ficou só aquele “V”: vulva-vazio-vem-vai-vácuo-viada-vagina. Mas nem isso. Viado? Pois é? Acho que aqueles gringo eram viado mesmo. Viado-boi-cabra-sem-chifre-e-bode-sem-barbicha, cão-sem-culhão-e-gato-sem-bigode, coelho-sem-cauda e carneirinho, carneirão, olhai pro céu, olhai pro chão e vi que tinha bem outra coisa escrita pra mim.
Pois é... Me aparece um morenaço todo de branco, cheio de jóias, ouros, pratarias, um sultão, a Maglécia disse: Olha, Kal, vai em cima: milionário, só pode. E eu fui, me entreguei toda. Daí... Daí... Ele se interessou por moi , “como não”, disse a Bisca-Cisca, “três gostosas úmidas como nós?!”. Daí eu disse: “Nós três não! Sai pra lá, pistoleira, que eu vi primeiro...”. Nem tinha, nada, mas com destino não se brinca, né? Daí eu que cheguei perto, claro, deixei ele me passar o chaveco... Chavequeiro que só... E eu... “moço, qual que é o teu signo?”. “Leão com escorpião, Lua em Áries, Vênus em libra”. “Aaiiii! Até a foda vai ser boa”, contei de longe pr´as meninas, o dedo médio em riste, uma aliança nele e os olhos passeando pelas órbitas. Nisso... Bem, a porcariada toda pra Iemanjá tinha ido pro saco, né? Tava tudo podre mesmo... Então, ele começou a me passar altos chavecos, disse que tinha uma cobertura, eu disse “que coincidência... Eu acabei de chegar de ‘Nuiorrque, sabe?’”, que ia me levar pra lá, e eu toda-toda-me-leva-que-eu-vou. E fui. O carro! Ai, uma limusine, vai vendo... Achei que a minha vida tava dando um 180, aquela Maglécia, Lene Bisca, tão feinhas, tão breguinhas, tão o-que-importa-é-ter-saúde que... Tá bom... Não eram gente pra mim, sabe? Alguém me disse, enquanto isso a Maglécia vê de longe moi-Kalcinéri no carraço e diz pra Bisca-Cisca: “Puxa, a Kalcinéri se deu bem, né?” E a Lene-Bisca-Cisca... “Não sei não... Maglécia, me diz um número... Fala aí...” “Número? Sete, claro”. E a Bisca ciscou, ciscou e concluiu: “Má... Culpa tua... Ocê viu direito aquele carro, e o ‘dono’ dele? O que era aquilo? Ai, a Kal tá fudida...”. “Como assim, Bisca, que que tu tá pensando?” E ela: “Bem, o dono eu não sei, já deve ter morrido e encarnado umas três vezes, e aquela banheirona passa de mão em mão feito você e tipo assim a ‘rainha do desmanche’ que é a Kal, sabe?”. "Pera lá, ocê tá me ofendendo!", disse a Maglécia. "Má, você é muito miguxa minha, mas me desculpa, todo mundo sabe que você bebe porra como a gente bebe água. E a Kal bebe e engole" — ai, ai, digo eu, que bebo, faço gargarejo, mas não engulo porra de cara que não conheço nem desaforo e falsidade de viada feito você, Biscaluniosa-sequiosa.