O "REVELION" DA KALCINÉRI II (cont. foto anterior) — MILIONÁRIO OU PAI-DE-SANTO?
Pois é... Me aparece um morenaço todo de branco, cheio de jóias, ouros, pratarias, um sultão, a Leni Bisca disse: Olha, Kal, vai em cima: milionário, só pode. E eu fui, me entreguei toda. Daí... Daí... Ele se interessou por moi , “como não”, disse a Maglécia, “três gostosas úmidas como nós?!”. Daí eu disse: “Nós três não! Sai pra lá que eu vi primeiro...”. Nem tinha, nada, mas com destino não se brinca, né? Daí eu que cheguei perto, claro, deixei ele me passar o chaveco... Chavequeiro que só... Nisso... Bem, a porcariada toda pra Iemanjá tinha ido pro saco, né? Tava tudo podre mesmo... Então, ele começou a me passar altos chavecos, disse que tinha uma cobertura, eu disse “ainda bem! Acabei de chegar de ‘Nuiorrque, sabe?’”, que ia me levar pra lá, e eu toda-toda-me-leva-que-eu-vou. E fui. O carro! Ai, uma limusine, vai vendo... Achei que a minha vida tava dando um 180, aquela Maglécia, Lene Bisca, tão feinhas, tão breguinhas... Não eram gente pra mim, sabe? Mas aquela limusine... Bem... O carro era meio velhinho, do estofamento pulavam molas, e ele disse “é bom, pra não ‘dispensar’ suspeitas, né? Essa onda de seqüestros tá um horror. E tirou debaixo do assento uma garrafa e disse: uísque escocês... Todo num riso em branco e preto. Tomou do gargalo e deu num copo de plástico pra mim. Eu fui bebendo, porque era caro e bom. Mas o carraço, bem no começo eu tava toda boba, dizendo “sempre quis andar de limusine, fazer um drive-in banco de trás, ai molhei!”, mas daí eu vi, senti, batia daqui batia dali, a limusine era um dodjão velho, e o dodjão era uma banheirona, isso é que ele era. Puta carro de bandido! Na época da minha vó aquilo devia ser carro de rico. Fiquei com um pé atrás, mas ele riu meio sem dente e me disse: “É pra não “dispensar’ suspeita... Muito seqüestro no Rio de Janeiro... Fico igual ‘aos mano’”. Eu concordei — ah, como tinha sido boba: rico é rico porque é esperto inteligente, né? — e perguntei: “É blindado?”. E ele: “Mas é claro... Ocê viu aqueles buracos de bala? Nem me atingiram... E assim ainda fico como ‘os mano’” — ai, ai. Daí fomos chegando, chegando, a estrada trepidando, uns buracos, o carro balançando feito carroça velha, e eu disse “bom, podia pelo menos ter trocado os amortecedor, né? Eu sou moça fina... Bota uma música, música boa... ‘Nuiórque, Nuiórque...’”. E ele: “não, não... É pra mim não ‘dispensar’ suspeita! Mim não pode dispensar suspeita, de que tem vida confortável, boa apresentação... Mim fica como ‘os mano’”. — Tarzã? — E ria, mostrando até dente de ouro. Ah, tá, tá bom. Daí... Daí... Passamos tudo que era bairro fino, classe média alta, altíssima, e nada de chegar. Eu vi uma placa: “Rato Molhado”. Pensei: “Hum, molhada é que tô eu... Por dentro e por fora...”. A paisagem ficou meio favelosa. Vi outra placa, não, era uma pichação: “Isto é Brasil”. E não é? A paisagem ficou igual... Favelosa, favelosa, ele me disse “quase chegando”, e eu “ai, meu deus, a coisa tá ficando feia”, e ele “sabe como é, os mano... Quem muit’ostenta vai que se lamenta...”, Pois é... Eu já tava conformada. E ‘”pô, o hômi é um cara cabeça, né?”. Até que ele me pára na frente de uma coisa, pouco mais que um barraco. Barraco coisas boa, de alvenaria, “material”, como diz lá no Sul. Me levou lá pra cima, pra ver o céu... E disse: “gostou da minha cobertura?”. E eu, “sei lá, assim também não...”: mas isso é só uma laje, pensa que eu sou boba, malandro? E ele: “Benzinho, pense na poesia, nesta noite, nas estrelas, no luar...”. — Poesia o caramba! — E despejou mais um pouco daquela gronha, dizendo: “Bebe, tudo, bem, bebe tudo... Qual é a sua graça mesmo?”. Eu já tava grogue, mas não sou boba não... Pensei em rezar uma pra virgenzinha de Guadalupe, dizer pra ela me salvar que eu tava ferrada. E ele emendou: “ué... Mas garotas como você gostam, aquele programa... ‘garotas da laje... Não gosta de ficar queimadinha?’ — queimada eu já tô! E bota queimada nisso, pensei, mas muita calma nesta hora — E eu aqui fico como os mano... Ninguém suspende ne mim , né?”. E me deu mais um pouco daquele uísque... Era de matá, mas tava bom... “Deixa eu te senti, gata...”. Nunca tinha bebido um uísque escocês assim da Escócia mesmo... Uma coisa “encorpada”. “Bebe tudo, bem bebe tudo”, foi falando. Aceitei, mas disse “não, não não... Laje, não!”. Eu quero uma coisa alto nível. Daí... Daí ele me levou pra casa dele, embaixo, tinha tudo de Bartira e Marabraz, tava tudo... tudo... Às escuras, não fossem as velas: Muitas velas, pela sala inteira, até no quarto... Sala, quarto e cozinha sem pia. Nem banheiro junto. “Eu perguntei: “Onde ocê caga?!” E ele apontou para uma pilha de jornais e disse: “Faço ali e jogo pela janela... Os mano pegam... Eu pago!”. — Me amassa que eu tô passada. Me colore que eu tô bege. — E tentou revelar o peito coberto de ouro. Foi aí que eu vi um alçapão, e com ele o lado bom... Ou não?: “Ah... Então você tem... Uma adega?!”. E ele: “Mais ou menos... No momento ando alugando pra cativeiro... Sabe como é, os mano...”. Engoli em seco, tentei alcançar o celular, na alça da calcinha, e cadê a calcinha?! Mal e mal o amuleto de Ogun... Nunca me sentira tão... Pelada! Mas ele disse: “Relaxa... — e como se eu fosse gringa: — A-mi-go ...”. Mostrou as mãos livres, desarmadas, não fossem os anéis e os dedos. Apontou a finèsse do ambiente à luz de velas. “Gosta? Romântico?”, perguntou e tilintou os ouros todos. E eu: “ocê não pagou a conta de luz? A gambiarra zicou de vez? Não pagou... ‘pros mano?’”. Ele disse, meio sem dente: “É romântico...”. e me deu mais um gole daquele uísque... Sei... Cachaça com vinho sangue-de-boi. Subiu até. E ele foi tirando a calça branca, apareceu o que eu pressentia: uma cueca rasgada, cor de abóbora forforescente, que iluminou o ambiente à luz de velas. Eu tava batendo pino. Nisso, lá fora, veio o que faltava: tiroteio... Ele disse: “Os fogos... Horário de verão... Os mano... Paguei pra você, minha jabuticaba...”. Senti a cabeça girar. Ai, meu deus, acuda! Olhei em volta, velas por toda a parte, e perguntei: “Ué? Cadê a galinha?”. E ele, meio alto, rindo: “Taí...”. E eu: “Cadê a galinha preta?!”. E vindo em cima, enrolão: “Tá aqui...”, e foi me dando mais um gole daquela coisa. Com um tapa, sim, eu dei, o copo de plástico pelos ares, passando pela cara dele, foi parar no teto e o líquido pelas paredes. Subi nas tamancas — Puta? Eu tava pra lá de puta, e mandei: “Fudido! Bichona! Sai pra lá, macumbeiro! Desgrama! Me leva embora pro Leblon, Faria Lima, Copacabana, raio-que-o-parta! Não sou petisco pra boca sem dente! Não sou rameira pro teu puteiro! Não sou galinha pro teu despacho!”. Foi daí que eu desci do salto, caí de quatro, ralei o joelho, ele tentou me cobrir como se eu fosse égua, subi, dei-lhe um safanão tonteei e dei no pé, correndo daquele morro, sob uma rajada de balas, em pânico de montanha-russa.
Saulo Krieger
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