Natal em Belém-Brasília
Menos pior? Ganhar um peru de Natal em concurso de ramerrão triste ou ir até Belém de Chevete? Chevete Tubarão 77 — Trintão conservado procura... Pra mim vale é tudo. Se eu fujo do pisca-made-in-China-baratex, do Natal-Simone ou estilo guarânia, paraguaia? Pior que porre de uísque falso-ruim. Sem contar que em um supermercado a vendedora, comissionada, me ofereceu um papai Noel vindo de algum lugar do Extremo Oriente que eu não quero lembrar: toda vez que o ser humano passava na frente do boneco, ele urrava uma coisa feia—pra criançada, então, uma barulheira, um inferno. Pior: era outubro. Depois sou eu uma temeridade de louco e brega. Tudo porque, é bem verdade, eu dissera, mas tava meio tarja preta, que em meu Chevete eu rasgaria as entranhas de meu país. Só que era verdade. Pura veracidade. A verdade é tão verdadeira que é algo que nem se vê. Sem cheiro e sem substância feito festa de fim de ano, das de hoje, de loja. Eu passo a mão nela e não pego nada, mal sinto atravessar. Assim é a verdade. Passa-se para o lado de lá e não se sente que passou. Então é verdade — é. Eu só pensava que esta estrada fosse uma reta só —já estou nela, pra quem não sabe. Enquanto não vier a selva, a relva, o cerrado é um arvoredo seco, de galhos retorcidos, tosqueira e raízes profundas como não se pode imaginar. Paisagem se anula de tão igual — talvez luzinha-made-in-China aqui ficasse bem, piscando pra ninguém piscar. É tão longe e coisa-só, que se brinca de monotonia: que passou, que foi agora: ou tenho ela ou tenho nada, só querendo querer cada metro, vaquinha como-de-presépio, e amanhã, a selva. Se abrir — biomas. Depois a balsa. E o quilômetro não este, o próximo. Pensava eu que cada qual seria novo, seria outro. É outro, sim, mas se repete. Como os anos — fingem primeira vez. É outro? Sim, outro repetido. É o mesmo, sim, e que não se conte a ninguém. Vivência é do que passou. Eu tô atrasado. Aquele cara que corre atrás... É louco. Você é louco! Pegar a Belém-Brasília num Chevete?! Sim, eu só tenho meu Chevete e ela pra pegar. Ele tem duas portas: dos fundos. Que seja, devo ser louco. Na Idade Média, as aldeias na Europa socavam seus loucos numa nau e os largavam babando rio acima, ou abaixo, pois pra louco cima ou baixo tanto faz. E eu vou de Brasília para Belém na estrada de nome inverso. Faço todo o inverso. E no final eu vou nascer: Belém. Eu fujo dos Natais presentes e sigo pra Belém. Se eu fosse a Altamira, lá onde o longe é perto, eu parava naquele cyber, selva, e pediria um café, num cyber de Altamira. Todo café é pequeno. Como não, vou num simplório prato de macarrão. No cyber de beira de estrada eu falaria com amigos lá onde não estão. E direi que tenho sono. Eu tenho muito sono. Em Nazaré eu peço um café passado na hora, mas acho que já passou. Fica para o próximo povoado-clareira, cidade atrás de outra, e tudo é longe. Eu telefono. Eu falo com ela. Se o carro agüentar. Se quebrar tem estrada pela frente. Eu pego um táxi lá onde vai pra Santarém e no Natal eu chego a Belém. Que bom. Lá tem um sino que bate bem. De lá pra frente é balsa. Só tenho pena de quem segue pra Tefé. Mas balsa também é meio, e rio, caminho. Quando o ano vier será o dia dos meus anos — raso 40! E não sei onde estarei. Aonde? A caminho, como sempre. Quero ver se chego a Manaus até o Dia de Reis. Parece mesmo que ela ganhou aquele peru de Natal, foi na TV local e contou a história de Natal mais triste. O pai se fantasiara de Noel, bebera todas, não achava o caminho de casa, achou o da Polícia. Ela contou, gostaram do lero-lero, uma velha deu o voto pra ela, ganhou o peru. Ainda não comeu, não, disse. E eu aqui sou uma coisa em quatro rodas. A estrada aí na frente, eu mais ela do que eu e parece que não acaba. Não que não houvesse aquela curva — quilômetro 707, ou 8. Aquela curva, onde se lia numa cruz bem meio torta. No quilômetro 707, ou 8, pois se era reta, quase não tem curva, monotonia feia de mal feita. A minha cabeça tava longe. Em Belém... No quilômetro 707, ou 8, eu não lembro muito bem, era uma curva... reta. E ali havia aquela cruz, madeira, humilde-e-pobre de dar dó. E sob a cruz, arremedo de epitáfio, fala chorosa de mãe, ainda li, ainda que acelerasse no possante: “Esta é a curva em que o meu filho morreu. Não sei onde ele está, se de mim esqueceu. Só sei que eu não o esqueço. E não é porque sou mãe, nem porque aqui perdi meu filho. Enquanto eu viver eu vou chorar as noites, feito assim, tão mais morta do que ele. Rezem por ele. E por esta mãe que não tem mais filho”. Ora, curvas... Bate o sino de Belém....