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saulokrieger
São Paulo - SP
 

Ainda que eu partisse, seguindo no ladrilho indiferente aqueles fios de prata

Ainda que eu partisse, seguindo no ladrilho indiferente aqueles fios de prata

 

Ouro sobre azul

 

 

 

Se me fosse permitido lembrar, eu certamente veria ao meu entorno, do pescoço para baixo, o tão-só de um longo pano enxadrezado a me cobrir inteiro, vermelho, branco, cada quadriculado seu com delicados contornos pretos, e sobre eles, a cair, uma aqui outra ali, plumagem dourada — seria tanto? —, fios quase nada, um amarelo claro, tão claro, quase branco, penugem incipiente e fina — se era pouca, se era rala? — de vir de algum alhures, de quase não se ver.

E eis que as reentrâncias do passado mo permitem, e me recorda um manto azul, celeste, para todos os lados, crescendo à volta de mim, sob ele se pressuporá um corpo, ao cimo, uma cabeça, maior o corpo e proporcionada capa, e quanto maior mais consciente de ser pequeno: sobre ele mechas de ouro, mais fartas, a compor um belo desenho ou, simples, um rico e prazeroso contraste: alguém disse a um terceiro “é ouro sobre azul”, e sempre fosse uma coisa bela ou muito boa, vibrante de tão clara e honesta, criou-se de mim e para todo o mundo a expressão: “ouro sobre azul”.

Depois veio mais um tempo, que não parou de vir e acelerou feito carro sem freio na banguela: ao meu entorno mantos de outras cores: laranja, vermelho, cinza, marrom, um verde meio desbotado. E sobre eles mechas douradas, quase que lhes eram confundidas ou se destacavam, alouradas, enfim castanhas de um tom não muito escuro. E o tempo se foi ainda mais, e não me consultou, nem menção de dizer “vem comigo” — pois eu não ia? Eu escolhia? Por vezes chegaram a ser longas, às vezes molhadas, e então se faziam pretas, às vezes acastanhadamente secas.

Até que um dia me cobriram de um manto preto, só pescoço e cabeça de fora, os pés lá embaixo, pernas compridas quanto a vida o permitiu, e retinas, àquele dia, cansadas, para mais se cansar nos que viriam. Mas ali, quando eu olhei abaixo, e em volta, eu vi o preto e sedoso inteiro salpicado de fios cinza, mais que cinza: prata, feito o minguante em céu escuro. De espanto fiquei maravilhado, estranhamente renovado, tardes de outrora em ressonâncias que um dia eu inventara, em ouro sobre azul. Lembrei e não compartilhei, só comigo. Prata em seda preta, ouro sobre azul. Mantive ali os olhos estatelados, depois o barbeiro tirou tudo e varreu sem dó, e desapercebido — do quê? Para onde? — os pequenos fios de prata. Não notou para onde iam meus olhos, não comungou, não comentou, não perguntou, não se deu e não ficou surpreso. Quem sabe tenha dito alguma coisa, outra coisa — se era verdade, se era bom, foge-me. Eles se foram, não souberam para onde, mas o tempo, não o das chuvas, dos ventos, do frio, me disse ter vindo pra ficar — ainda que eu partisse, para a terra seca em escuro grotão, seguindo no ladrilho indiferente aqueles fios de prata.

 

 

 

Saulo Krieger

saulokrieger@hotmail.com