Ouro sobre azul
Se me fosse permitido lembrar, eu certamente veria ao meu entorno, do pescoço para baixo, o tão-só de um longo pano enxadrezado a me cobrir inteiro, vermelho, branco, cada quadriculado seu com delicados contornos pretos, e sobre eles, a cair, uma aqui outra ali, plumagem dourada — seria tanto? —, fios quase nada, um amarelo claro, tão claro, quase branco, penugem incipiente e fina — se era pouca, se era rala? — de vir de algum alhures, de quase não se ver.
E eis que as reentrâncias do passado mo permitem, e me recorda um manto azul, celeste, para todos os lados, crescendo à volta de mim, sob ele se pressuporá um corpo, ao cimo, uma cabeça, maior o corpo e proporcionada capa, e quanto maior mais consciente de ser pequeno: sobre ele mechas de ouro, mais fartas, a compor um belo desenho ou, simples, um rico e prazeroso contraste: alguém disse a um terceiro “é ouro sobre azul”, e sempre fosse uma coisa bela ou muito boa, vibrante de tão clara e honesta, criou-se de mim e para todo o mundo a expressão: “ouro sobre azul”.
Depois veio mais um tempo, que não parou de vir e acelerou feito carro sem freio na banguela: ao meu entorno mantos de outras cores: laranja, vermelho, cinza, marrom, um verde meio desbotado. E sobre eles mechas douradas, quase que lhes eram confundidas ou se destacavam, alouradas, enfim castanhas de um tom não muito escuro. E o tempo se foi ainda mais, e não me consultou, nem menção de dizer “vem comigo” — pois eu não ia? Eu escolhia? Por vezes chegaram a ser longas, às vezes molhadas, e então se faziam pretas, às vezes acastanhadamente secas.
Até que um dia me cobriram de um manto preto, só pescoço e cabeça de fora, os pés lá embaixo, pernas compridas quanto a vida o permitiu, e retinas, àquele dia, cansadas, para mais se cansar nos que viriam. Mas ali, quando eu olhei abaixo, e em volta, eu vi o preto e sedoso inteiro salpicado de fios cinza, mais que cinza: prata, feito o minguante em céu escuro. De espanto fiquei maravilhado, estranhamente renovado, tardes de outrora em ressonâncias que um dia eu inventara, em ouro sobre azul. Lembrei e não compartilhei, só comigo. Prata em seda preta, ouro sobre azul. Mantive ali os olhos estatelados, depois o barbeiro tirou tudo e varreu sem dó, e desapercebido — do quê? Para onde? — os pequenos fios de prata. Não notou para onde iam meus olhos, não comungou, não comentou, não perguntou, não se deu e não ficou surpreso. Quem sabe tenha dito alguma coisa, outra coisa — se era verdade, se era bom, foge-me. Eles se foram, não souberam para onde, mas o tempo, não o das chuvas, dos ventos, do frio, me disse ter vindo pra ficar — ainda que eu partisse, para a terra seca em escuro grotão, seguindo no ladrilho indiferente aqueles fios de prata.
Saulo Krieger
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