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saulokrieger
São Paulo - SP
 

Olham para ela, que não olha para trás. Foi-se, e a outra, foice.

   Olham para ela, que não olha para trás. Foi-se, e a outra, foice.

Dezenove degraus [começa na foto anterior]

 

 

            Vê ao lado impávido colosso, pirâmide, latas de óleo do chão ao céu empilhadas — Queops, Quefren e Miquerinos. “Eu sou o escravo liberto, e tu, a filha virgem do faraó que jaz lá dentro, mumificada e morta para sempre.” Kalcinéri se abaixa, juízo das velhas profissões, da mais velha posição e foi aos pés,  quero-te pedra basilar e lata de todas a mais rente ao chão. Saiu-se, o chão lhe foi embora e era bom. Pausou de si, arregalaram, desacreditaram dela, e lembrou de uma embalagem de chocolate dos idos da infância, mensagem como de volumes de alfarrábios: “É tão fácil ser feliz”. Mão. "Não!" — gritou alguém. Quem? E a tira do lugar. E só. Foi e não foi. Desvencilha-se da balbúrdia, do burburinho mudo “e livrai-nos das mulheres frustradas, das quase-velhas infelizes e do tempo que as sorveu de dentro fazendo embalagens, murchas”, e sai dali pé ante pé impávida, elegante, toda leve 3 e pague 2, ou 1, nenhum, não, cruza que te cruza perna, pague, desapercebida como não é um furto, de molejo feito um cat. Olham para ela, que não olha para trás. Foi-se, e a outra, foice. Não olham por ela. Livre que só. Sobre as gôndolas paira como que um tule, uma voragem lúgubre. Kalcinéri atravessa o limiar como a perpassar um véu, o corpo em viola, a ganhar a tepidez da tarde ensolarada. O sol bocejou, saiu trás das nuvens e cantou um canto para ela: “Deixai vir ao meu calor ao meu alto as gazelas lépidas que pululam na terra e sob mim, desensabidas”. De saltos altos, distantes, perdendo-se na sombra para se deparar alheia — na luz.

 

 

 

Saulo Krieger

saulokrieger@hotmail.com