Dezenove degraus
Pé ante pé, cruza que cruza, os olhos naquele céu, espécie de juízo - final? — , Kalcinéri cruzou bem a perna esquerda, botá-la em frente à direita, sustenta... a nota, roça que roça, e não deixa o delicioso rolo cair. Terceiro degrau. E nisto que eu digo, narrador me faz atento, perder, resquício de história, o reluzente rolo quase vai por entre as pernas torneadas; porém não: subir a outra perna. Espatamar; encontrar-se. Kalcinéri olhou para o céu de vidro e funcionários compenetrados, embaixo olhavam para ela. Quarto-que-te-quero quinto degrau. Cruza que cruza, perna que entesoura, rala-te coxa, segura-te rolo de chocolate, que se se move e cai o faz por assustado meio centímetro, oscila, mão no corrimão, sente medo, gostam, e na pequena multidão há quem só sabe gozar assim. Sétimo degrau.
Kalcinéri cruza perna, ela não ensaiara ascese desse jeito, como aquela, nem com sobre ela tantos olhos. Ainda um, sobre, sobe, o décimo, não, não sabe se olha para si, para cima, se alguém que já olha para ela, se se volta, se se pensa, se intimida, se é chão. Décimo terceiro degrau.
Kalcinéri não sabe se se prova, se se ascende, se se abre, se se solta, se desculpa, décimo quarto.
Não sabe se relaxa a panturrilha, se se prende, se encolhe a barriga, já sarada, se nega, se impede e se dignifica, se nega, se o pode, até quando, se sobe, se solta, se pára. Se olha. Décimo sexto degrau.
Kalcinéri sobe, tão lenta, lá em cima um homem de gravata olha para ela, não por ela, para ela, e um moço é todo olhos de volúpia - coxas. Ela repara a ferida há muito cicatrizada, esquecida no joelho, lembra de quando pequena, mal chegara ao aniversário da prima, brincaram de pega-pega, ela correu, logo de cara, escorregou, caiu no chão de terra, joelho abriu, rasgou. Uma tia-avó recém-falecida a levou ao banheiro, não, não havia escada, a casa era térrea, lavou, botou iodo e um chumaço de algodão. Kalcinéri lembra, ardia, ardia muito. Atenta. Décimo sétimo degrau.
No décimo oitavo, se o contasse, talvez lhe ocorresse quão numerologicamente relacionado estava ao delicioso objeto que tinha entre as pernas, e aos igualmente dezoito de Tomás, que a sangraram sob o mesmo doce aroma dos laranjais, o mesmo que lhe viria ao lhe descer aquele tal por entre as pernas, chocolate, se conseguisse vencer, a escada, a comissão lá em cima, a indomada, se conseguisse cruzar as pernas, se fizesse burlar a lei, se fizesse demovê-los, se a tal ante o vexame até ali satisfizesse e tal, deixando escapar a Kal em ancas reboladas, passo cuidado e exageradamente cat - se, se e se.
Décimo nono grau. Do vigésimo século não passarás, ao vigésimo degrau em boa não chegarás. Tenta o roçar de coxas em tesoura inda uma vez, de bamba que está um descuido, rola abaixo o rolo reluzente, escapa-lhe pelas pernas, a cair, parar, alguns degraus abaixo. É o décimo nono degrau. Ai, que terrível décimo nono degrau!
A megera abre os braços e sorri de satisfação. Nem sabe que dizer. Aponta. Aponta a situação com os dois braços: “mas quê!”. A multidão:
— Huumpf!
Um homem de meia-idade ri, bonachoso, um garoto olha o outro, que ri para um terceiro. Há quem volte às compras, um melão vence a caixa registradora, a dona de casa lembra que precisa fósforos, outra se decide pela fatuidade do sabão de coco, outra ainda cai em si e toma o rumo do leite longa vida. E lá em cima - ao trabalho. Kalcinéri dá-se conta de que tem ainda um belo corrimão. No alto um senhor idoso acaricia a barba fofa e muito alva - parece misericordiá-la. Senta nele, agora solta, de pernas bem abertas, escorrega até lá embaixo, muita carne muita gente vê, a megera embasbacada, e os homens, tanto mais.
No umbral, Kalcinéri a encara, peita, corajosa:
— Que foi?! Nunca me viu? Franchona! Nunca viu pernas, bunda e trejeito de mulher? Quer um pouco da minha carne?
A megera, entre úmida-emudecida, empergou-se inteira, dolente em vontade boa, doente em desejo são. E trancafiada como um brado na esterilidade de seu peito-quase-tábua. Kalcinéri, de cólera aliviada, bate no seu, a arrancar dali funebridades:
— Sai de mim, sapatão! Sai de mim! — Mais:
— Porque eu não sou sapatão, não!